O fundador do Content Marketing Institute, Joe Pulizzi, apresentou o conceito de portfólio de confiança na abertura do Content Marketing World 2026, em Denver, nos Estados Unidos. O evento, realizado entre 5 e 7 de outubro no Colorado Convention Center, reúne mais de 100 palestras e painéis sobre inteligência artificial, criação de conteúdo, construção de audiência e estratégia editorial.

A palestra foi acompanhada de perto pelos três sócios-fundadores da Barões Brand Publishing: Paulo Henrique Ferreira (Diretor-Executivo), João Gabriel Pereira (Diretor de Tecnologia) e Bruno Costa (Diretor de Estratégia de Dados), que estão em Denver para o evento e puderam entregar a Joe Pulizzi os livros lançados pela empresa: “Brand Publishing e Transição Midiática” e “Brand Publishing na Prática”.

Um palestrante está em um palco ao lado de uma grande tela de projeção que exibe o texto: As vozes humanas confiáveis estão se tornando cada vez mais valiosas.
(Foto: Bruno Costa)

Pulizzi abriu a programação com a sessão “O Portfólio de Confiança: Sua Vantagem Competitiva em um Mercado Saturado de IA”, na qual questionou a premissa de que marcas competem produzindo mais e melhor conteúdo. Para ele, a inteligência artificial generativa alterou o ambiente em que marcas criam conteúdo e constroem audiência: se produzir ficou mais rápido e barato, produzir em maior volume deixou de ser suficiente para diferenciar uma marca.

Eu acho que a inteligência artificial e os algoritmos estão mudando tudo sobre como construímos confiança. As pessoas querem se conectar com pessoas. Essa é a oportunidade.

Para sustentar o argumento, ele citou dados sobre o avanço de conteúdo sintético. Segundo as estimativas apresentadas, mais de 50% dos e-books publicados recentemente na Amazon são parcial ou totalmente gerados por inteligência artificial, e 75% das novas páginas na internet e mais de 50% do conteúdo do TikTok têm a mesma origem. Pulizzi mencionou ainda um estudo no qual 68% dos entrevistados disseram ter dificuldade para diferenciar conteúdo humano de conteúdo sintético, e outro levantamento no qual 62% das pessoas preferem notícias produzidas inteiramente por humanos, contra 12% que preferem notícias geradas por inteligência artificial.

Da voz única ao portfólio de pessoas

No modelo tradicional, segundo Pulizzi, as empresas concentram a produção de conteúdo em um único canal corporativo. A proposta do portfólio de confiança distribui essa capacidade entre vozes individuais, cada uma com uma área de atuação e uma relação própria com o público. “Retire todo o músculo de conteúdo de uma parte da organização e distribua por toda a organização”, disse Pulizzi.

Ele citou o jornal The New York Times e o site de notícias Puck como exemplos de veículos que passaram a construir relações em torno de personalidades e áreas de especialização, em vez de depender apenas da identidade institucional. “Eu quero confiar em David. Eu quero confiar em Jessica. Não sei sobre a instituição, mas sei sobre a pessoa. Sei que essa pessoa é real”, afirmou.

Três perfis para começar o portfólio

Pulizzi recomenda iniciar com três perfis, antes de expandir o portfólio para nove, 21 ou mais pessoas:

  • Especialista: profissional com domínio técnico sobre um tema, capaz de ensinar a audiência, como um engenheiro ou pesquisador;
  • Narrador: transforma experiências e dados da organização em histórias, podendo vir de áreas como marketing ou vendas;
  • Defensor: em geral um executivo sênior, capaz de falar sobre o setor ou uma causa ligada à organização.

Para ilustrar a durabilidade do modelo, Pulizzi comparou a estratégia ao programa americano Saturday Night Live (imagem abaixo), que perdeu diversos membros do elenco ao longo dos anos e manteve a audiência ao substituí-los:

Eles perderam todos, e sabe o que mais? Eles substituíram todos também

Um âncora de notícias apresenta um gráfico que mostra que 68% dos consumidores questionam a veracidade do que veem, 62% preferem notícias produzidas por humanos em comparação com 12% que preferem as produzidas por IA, e o conteúdo produzido por humanos tem 8 vezes mais chances de ficar em primeiro lugar.
(Foto: Bruno Costa)

Três caminhos para formar o elenco interno

A reportagem do BrandPublishing.Media descreve três caminhos pelos quais as empresas chegam a um portfólio de criadores internos. No primeiro, chamado por Pulizzi de “acontece sem planejamento”, um funcionário constrói audiência própria sem estratégia formal. Ele citou o caso de um especialista em impressoras da Staples que ganhou visibilidade no TikTok, e o de uma funcionária da rede Chick-fil-A cujas publicações de sucesso foram interrompidas pela empresa; ela posteriormente assinou contrato com uma concorrente.

No segundo caminho, as empresas incentivam funcionários a produzir conteúdo ou participar de programas de advocacy, como os citados por Pulizzi na varejista Gap. Essa abordagem pode revelar talentos internos, mas tende a carecer de foco editorial e levanta questões sobre controle de marca.

O terceiro caminho, recomendado por Pulizzi, consiste em identificar antecipadamente onde a empresa precisa construir confiança com determinado público e, a partir disso, localizar as pessoas internas capazes de falar sobre o tema com credibilidade. Essa abordagem transforma a participação de funcionários em estratégia editorial, não em um programa informal de redes sociais.

O objetivo do portfólio de confiança: audiência que retorna

O conceito também muda a forma como Pulizzi pensa sobre descoberta de conteúdo. Segundo ele, a visibilidade em algoritmos pode se tornar um objetivo em si mesmo, quando o mais relevante é desenvolver uma relação que continue além de uma única publicação. “Seu objetivo aqui não é ser encontrado no algoritmo. Você quer que as pessoas assinem e voltem”, disse Pulizzi. Leads, retenção e receita podem resultar de uma relação já estabelecida por conteúdo útil e interação constante, segundo o argumento apresentado na palestra.

O que o portfólio de confiança significa para o Brand Publishing

A proposta de Pulizzi levanta uma questão sobre onde deve viver a voz editorial de uma empresa. A resposta não está em transformar cada funcionário em criador de conteúdo, mas em identificar onde a confiança importa, localizar pessoas com autoridade genuína e construir a estrutura editorial que permite a elas se comunicarem de forma consistente.

Essa estrutura conecta-se aos pilares de gestão, distribuição, dados e educação que orientam a cobertura de nossos portais Brand Publishing Brasil e BrandPublishing.Media. Pesquisa, desenvolvimento editorial, edição e produção são processos capazes de transformar conhecimento individual em plataformas de conteúdo sustentáveis, dentro ou fora das redações corporativas.

A proposta de Pulizzi parte do mesmo problema que afeta equipes de conteúdo em diferentes mercados: quando a inteligência artificial torna o conteúdo abundante, produzir mais deixa de sustentar uma vantagem competitiva. Ao diversificar as fontes de confiança dentro da organização, o portfólio de confiança desloca o centro da estratégia editorial da quantidade de conteúdo para a identificação de quem o público já escolheria ouvir.