Às 9h30 desta quinta-feira, 28 de maio, no Auditório da ESPM Tech, na Vila Mariana, em São Paulo, a moderadora Sabrina Passos já avisou para ninguém sair antes do fim. E havia uma boa razão para o alerta: o primeiro painel do ANER Summit 2026, batizado de “Internet Pública versus LLMs Privadas”, entregaria menos respostas, mais perguntas e uma dose generosa de incômodo. E foi o que aconteceu.

Paulo Henrique Ferreira, sócio-fundador e Diretor-Executivo da Barões Brand Publishing, participou do painel ao lado da professora Ruth Reis (UFES) e do consultor Guilherme Ravache.

O portal Brand Publishing Brasil, media partner do evento, acompanhou todos os painéis e talks ao longo do dia, registrando discussões sobre o futuro da comunicação corporativa e do jornalismo especializado.

Veja o vídeo completo com todos os painéis e talks

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O mood do dia: mais perguntas do que respostas

Paulo Henrique Ferreira foi quem abriu as apresentações. E fez questão de estabelecer o tom antes de qualquer slide: o painel não foi pensado para mostrar cases de sucesso nem para celebrar o que a IA já faz bem. A proposta era outra:

Vai ter um dia inteiro de falar de cases. Todo mundo vai mostrar o que funcionou. Para a gente setar o mood de que temos mais perguntas do que respostas, esse painel existe para ter uma visão crítica e bem fundamentada do momento que estamos vivendo. Não estamos falando de metaverso, não estamos falando de Clubhouse. Foram discussões pesadíssimas sobre ruídos e não sinais. Hoje a gente vai discutir sinais.

A partir daí, o executivo foi fundo. Usando uma linha do tempo que vai do telégrafo às LLMs, ele argumentou que a transição midiática não é fenômeno novo, mas que a camada adicionada pela inteligência artificial tem uma particularidade importante: os sistemas de IA não apenas distribuem conteúdo. Eles sintetizam, interpretam e, cada vez mais, respondem pelo usuário, sem que o publisher original sequer apareça na jogada.

“A gente aprendeu a viver com buscadores, com redes sociais, com plataformas se reorganizando. A IA adiciona uma nova camada: sistemas que não apenas distribuem o conteúdo, eles sintetizam, interpretam, respondem às vezes pela gente. O que é que isso muda para os negócios, para a autoridade, para a visibilidade?”, questionou PH.

O executivo também trouxe a perspectiva geopolítica do debate, muitas vezes ignorada nas discussões de mercado. Dos dez maiores players de software do mundo, oito são americanos. O hardware que viabiliza a IA depende de minerais da Ucrânia, chips fabricados em Taiwan e infraestrutura dominada pelos Estados Unidos.

“Não adianta a gente achar que vai fazer um chatbot da sua empresa e não entender a dimensão disso. Cada LLM custa cem milhões de dólares para ser lançado. A gente tem que entender como se posicionar como publisher usando a IA, inclusive como fornecedor de bases de dados estruturadas e organizadas”, afirmou o diretor da Barões.

E foi nesse ponto que PH enunciou uma das teses de sua apresentação: a diferença entre a internet pública e as LLMs privadas é, no fundo, uma questão de poder:

“O www foi feito como uma coisa libertária para a humanidade. LLM tem donos.”

Para ele, os publishers, sejam veículos de imprensa ou marcas que operam como tais, têm diante de si uma oportunidade concreta nesse rearranjo, especialmente em língua portuguesa, onde as bases de treinamento das grandes LLMs ainda são menos densas.

Informação confiável, estruturada, organizada, vai fazer diferença cada vez mais. Por isso eu sempre falo: publishing é um superpoder

O executivo também trouxe a perspectiva da Barões como empresa que acredita no jornalismo como ferramenta das marcas:

A gente acredita que o jornalismo com J maiúsculo não pertence só à imprensa. As empresas têm a obrigação, o dever e a oportunidade de informar também. A marca, ao invés de persuadir, tem que primeiro informar.

Cinco palestrantes sentados em um palco durante o ANER Summit 2026. Atrás deles, há uma tela exibindo seus nomes, fotos e títulos, juntamente com a marca do evento e os logotipos dos patrocinadores. Quatro painelistas estão conversando.
Sabrina Passos (esq.), PH Ferreira, Ruth Reis e Guilherme Ravache (Foto: Joana Carvalho)

Tecnologia como poder

Ruth Reis, professora titular da Universidade Federal do Espírito Santo e doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, trouxe para o painel a dimensão que costuma ficar de fora das discussões de mercado: o poder.

Para ela, a discussão sobre LLMs privadas versus internet pública não é só tecnológica nem só econômica. É política. E passa, obrigatoriamente, pela questão da soberania cognitiva.

Nós temos que falar de soberania. Para onde a gente conduz nossa comunidade? Se a gente não tiver essa visão, vamos ser escravos do negócio

A professora e doutura foi direta ao apontar que a disputa entre publishers independentes e grandes estruturas corporativas de IA é, nas suas palavras, uma briga de Golias com Davi. E que a solução não virá apenas do mercado, nem apenas da lei.

“Regulação não é só regulamentação. É um conjunto de iniciativas, de boas práticas, de formas de financiamento, que precisam ser discutidas sem preconceito”

O dado que travou o coração da plateia

Guilherme Ravache, consultor, colunista de mídia do Valor Econômico e analista de negócios no Times Brasil, foi quem proferiu a frase que a moderadora Sabrina definiu como aquela que “travou o coração” de quem estava na sala: “sem regulação e sem apoio público ao jornalismo independente, os pequenos não ficam de pé”.

“Já tá difícil hoje. E por que é importante dizer que não fica de pé? Porque senão a gente não endereça as questões. Enquanto tivermos subterfúgio, fingindo que dá para tocar, ninguém vai discutir seriamente incentivo ao jornalismo, ninguém vai discutir regulação de verdade”, disse Ravache.

Para ilustrar onde está o dinheiro, ele citou o acordo recém-aprovado entre a Samsung e o sindicato dos trabalhadores de produção de chips na Coreia do Sul, que destinará parte significativa dos lucros gerados pela automação diretamente aos trabalhadores: R$ 2 milhões para cada um dos 78 mil funcionários em janeiro de 2027. A conclusão foi direta: “Não dá para fingir que não tem solução. A IA vai aumentar a produtividade, vai ter mais dinheiro. A questão é a distribuição”.

O que fica do primeiro painel

Se havia um consenso entre os três palestrantes, era este: o problema não é a inteligência artificial em si, mas a ausência de um ambiente regulatório e de financiamento que permita que publishers independentes, jornalismo de qualidade e a informação de interesse público sobrevivam à concentração crescente de valor nas mãos de poucas plataformas privadas.

A crise existencial que Sabrina Passos havia prometido para antes das 11h foi entregue pontualmente.

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