O segundo painel do Aner Summit 2026 reuniu especialistas para discutir como a inteligência artificial pode ser aplicada de forma criativa no jornalismo sem comprometer a identidade autoral da profissão. O evento aconteceu no Auditório da ESPM Tech, na Vila Mariana, em São Paulo, nesta quinta-feira, dia 28 de maio.

Lilian Ferreira, diretora de inteligência digital e inovação do Grupo Bandeirantes, Welton Simões, colunista de tecnologia do UOL, e Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e pesquisador do NIC.br, participaram do debate mediado por Flávio Moreira, consultor de negócios para publishers.

O portal Brand Publishing Brasil, media partner do evento, acompanhou todos os painéis e talks ao longo do dia, registrando discussões sobre o futuro da comunicação corporativa e do jornalismo especializado.

Veja o vídeo completo com todos os painéis e talks

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Implementação prática supera automação simples

Lilian Ferreira abriu sua fala com uma distinção que pareceu simples mas atravessou todo o debate: automatizar e usar IA não são a mesma coisa.

Oitenta por cento das coisas a gente resolve automatizando e não usando IA. A questão é onde a gente coloca a criatividade.

Para ilustrar, ela trouxe dois casos da Rádio Band News FM que foram, cada um à sua maneira, reveladores.

O primeiro: durante os julgamentos do STF, o comentarista Reinaldo Azevedo estava com problemas de voz e não conseguia gravar. A solução foi clonar sua voz por IA, a partir de gravações de leitura, não de fala espontânea, um detalhe que, segundo ela, fez toda a diferença no resultado. Em questão de horas, o time da Band mobilizou RH, jurídico e produção para garantir a autorização de uso da voz, e o comentário foi ao ar.

Os ouvintes queriam ouvir o Reinaldo Azevedo. A recepção foi muito positiva, pois a solução supriu uma necessidade real.

O segundo caso foi menos dramático, mas igualmente revelador: com redações enxutas tendo que produzir simultaneamente para rádio, site e redes sociais, a Band criou agentes que, a partir de um áudio enviado pelo repórter no WhatsApp, transformam o conteúdo em texto e post de rede social automaticamente. O jornalista segue fazendo o trabalho jornalístico. A máquina cuida da multiplicação.

Começar pela IA ou pelo humano: a diferença que um estudo do MIT revelou

Diogo Cortiz trouxe para o painel a dimensão cognitiva da discussão, e o fez com dados que merecem atenção. Citou um estudo do MIT que usou eletroencefalografia para medir a conectividade cerebral de grupos que escreviam ensaios, parte deles começando com IA, parte sem. O grupo que partiu diretamente para a ferramenta lembrava, ao final, apenas 18% do que havia escrito. O grupo que começou sem IA lembrava 89%.

Mais revelador ainda foi o que aconteceu quando os grupos trocaram de abordagem. O grupo que havia começado com IA, mesmo quando passou a escrever sem ela, manteve baixo engajamento cognitivo. Já o caminho inverso, não, pois quem havia construído o raciocínio por conta própria usou a ferramenta como expansão, sem prejuízo.

Dependendo do momento em que você entra com a inteligência artificial no processo criativo, você pode se dar bem ou mal. Pedir ideia para a IA logo de cara ancora toda a sua cognição. Já quando as pessoas colocaram suas ideias primeiro e depois foram para a IA, houve um salto na criatividade divergente.

Outro estudo que ele citou, publicado recentemente pelo economista Daron Acemoglu, sugere que IAs muito eficientes em responder perguntas eliminam a fricção produtiva, aquele esforço de buscar uma solução que, como efeito colateral, gera novos conhecimentos. Uma IA que responde tudo perfeitamente, nesse modelo, seria pior para o desenvolvimento humano do que uma que deixa algumas lacunas.

A ética que o jornalismo não pode terceirizar

A última parte do painel foi a mais politicamente incisiva. Welton Simões Gomes colocou em palavras o que muitos na plateia pareciam sentir, mas hesitam em dizer: ao adotar as ferramentas de IA sem construir sua própria política ética, o jornalismo acaba importando a ética das big techs. E essas empresas têm outros propósitos.

“O jornalismo adora discutir a ética do trabalho dos outros. Mas nesse momento, ao adotar a IA cada vez mais, a gente tem adotado a ética das empresas que a abrigam. E como o Diogo disse, a gente tá perdido se fizer isso. Elas têm outro norte”, disse.

A saída que ele propõe passa por mostrar o processo. Tornar visível como o jornalismo é feito, quais são os critérios que guiam as decisões editoriais, onde a IA entra e onde não entra. E, fundamentalmente, deixar de disputar no mesmo campo dos grandes produtores de conteúdo.

O que eles fazem não é jornalismo. Talvez uma das pontas de lança seja mostrar exatamente isso,

Diogo Cortiz foi na mesma direção, lembrando que os departamentos de ética das grandes empresas de tecnologia foram sendo desmontados após a corrida desencadeada pelo lançamento do ChatGPT.

“Esperar uma postura ética das empresas de tecnologia é o que a gente menos pode fazer. O caminho como organização é cada uma construir internamente sua própria política”, disse Cortiz.

A Band, nesse sentido, foi apresentada como referência prática. Lilian falou sobre dois meses de treinamento com todos os jornalistas do grupo, LLMs próprias treinadas com os manuais de redação de cada produto e um princípio não negociável:

O humano sempre dá a última chancela. O humano é responsável pelo que sai.

A pergunta que ficou no ar

Uma intervenção da plateia, de Celso, da Brasil Energia, trouxe para a conversa o papel do jornalista individual nessa transição. Não apenas o publisher, não apenas a tecnologia, mas a pessoa que vai pra rua, que faz a apuração, que desenvolveu ao longo da carreira um olhar que nenhuma ferramenta reproduz.

Lilian Ferreira e Welton Simões foram diretos na resposta: o problema não é a IA. O problema é uma geração que aprendeu a fazer jornalismo sentada na frente do computador, sem ir à rua, e que agora tem mais um motivo para não sair de lá.

Eles ponderaram que a IA não vai apurar uma morte em tempo real. Não vai descobrir o que ninguém ainda publicou. E não vai construir a confiança que faz alguém abrir um veículo para checar se uma notícia é verdade.

“Ir pra rua ficou muito longe. E é aí que a gente tem que voltar, porque isso a IA não faz”, disse Lilian.

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