Leandro Modé não considera o seu processo de escolha de carreira como algo simples. Formado em jornalismo em 1996, pela faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, ele afirma que, na verdade, quando foi preciso decidir, até mesmo um teste vocacional mostrou que seu caminho “era muito aberto”. No fim das contas, ficou entre o jornalismo e a engenharia agronômica. E acabou optando pelo primeiro. Em um papo exclusivo com o portal Brand Publishing, o atual Diretor de Comunicação da Vale fala de sua trajetória.
Vale: o papel estratégico da comunicação
Para falar da carreira de Modé, vamos começar pelo presente. Em 2023, o jornalista assumiu a liderança da comunicação de uma das maiores empresas do Brasil e do mundo, a Vale. Em sua atual posição, ele se reporta diretamente ao CEO da companhia, o que evidencia o lugar estratégico que a comunicação ocupa.
Na Vale, uma das iniciativas do executivo foi a criação do Radar Mineração, portal de Brand Publishing lançado em outubro de 2025 e desenvolvido em parceria com a Barões. Focado em temas setoriais, hub de conteúdo posiciona a empresa como produtora de informação de interesse público, indo além da comunicação institucional tradicional.
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Outro gigante de sua indústria no currículo
O Radar Mineração, porém, não é a estreia de Modé no universo do Brand Publishing. Antes da Vale, ele passou cinco anos em outra empresa gigante em seu setor, o Itaú Unibanco, onde chegou em janeiro de 2018. Após um processo de transição do posto de Chief Communications Officer (CCO) do banco – a parte de relações governamentais, que acumulava, também fora deixada para trás -, o executivo assumiu a função de CEO do portal Inteligência Financeira.
“Entrei no Itaú, primeiramente, para trabalhar apenas com a comunicação corporativa. Depois, me passaram também para relações governamentais. Durante três anos eu toquei as duas áreas simultaneamente, até que no final de 2021 surgiu a oportunidade de ficar responsável pelo Inteligência Financeira”, conta o executivo.
Em setembro de 2022, Modé participou de um dos painéis do evento Brand Publishing Exclusive (foto de destaque deste artigo), idealizado e organizado pela Barões Brand Publishing, que além do Itaú contou com outras marcas como ENGIE, MRV&Co, QuintoAndar, Cooxupé, Fundação Dom Cabral e Marfrig.
Na oportunidade, ele apresentou o case do Inteligência Financeira, falou sobre a estruturação de processos de conteúdo do banco, reforçando a importância de uma marca se estabelecer como publisher, e debateu com os representantes das outras empresas sobre novos caminhos da comunicação editorial no atual cenário de transição midiática.
Dois anos depois, em 2024, o executivo foi um dos coautores do livro “Brand Publishing na Prática”, organizado por Paulo Henrique Ferreira, Diretor-Executivo da Barões.
O início de tudo
A opção de Modé pelo jornalismo ocorreu após uma conversa com um primo que era professor da UNESP, no curso de engenharia agronômica.
“Tomei a decisão de fazer jornalismo, pois achei que era algo que tinha mais a ver comigo. E também era uma forma, não vou negar, de fugir de Física, que eu detestava, e mesmo de Matemática, apesar de ser uma matéria com algumas áreas que eu gosto. Me encontrei no jornalismo e nunca tive dúvidas sobre se eu deveria seguir ou não com a faculdade”, lembra Leandro.
Passagens por grandes redações
Além da universidade, muito da carreira de Leandro se guiou pelas redações por onde passou.
“Me formei em 1996 e sempre tive claro que a nossa geração de jornalistas precisaria ser multimídia. Essa foi uma característica que guiou minhas escolhas desde a largada. Sempre me permiti experimentar muito. Muito ancorado na imprensa escrita, pois eu sempre gostei muito da ideia de trabalhar em jornal. Foi o lugar mais encantador que eu trabalhei, ao lado da rádio. Mas eu tive uma estratégia de construção de carreira muito multimídia. Então, eu trabalhei em jornal, rádio, TV, assessoria de imprensa – na época ainda da faculdade, como estagiário – e trabalhei em revista também. Tive uma carreira muito diversificada em redação. E isso foi uma escolha minha, mesmo”, conta o jornalista.
A primeira experiência online no UOL
Apesar de ter passado a maior parte de seu tempo em redações nas mídias impressas, Leandro trabalhou entre 2000 e 2001 no UOL, o maior portal da internet brasileira à época, em um momento em que o jornalismo online ainda engatinhava no Brasil.
“Tenho muito orgulho de ter trabalhado no UOL. Foi uma grande escola. Uma experiência muito legal e muito inovadora para a ocasião. Mas era um momento em que a relevância do jornalismo e dos jornalistas ainda não estava na internet. Me formei em jornalismo em uma época em que ainda se priorizava muito a mídia impressa e a mídia eletrônica tradicional. E coloquei na minha cabeça que se fosse para trabalhar com internet, eu precisava trabalhar em algum lugar que tivesse relevância. Quando fui para o UOL, nem foi um movimento muito consciente na época, de buscar trabalhar com internet, um negócio inovador e disruptivo. Tanto que eu acabei voltando para mídia impressa depois. Fui para a revista Forbes e mais tarde acabei voltando para o Estadão, onde eu trabalhava antes de ir para o UOL”, revela Leandro.
No entanto, Leandro tem a experiência no portal em grande conta e diz que foi lá onde fez “algumas das grandes inovações” de sua carreira. Além disso, teve a oportunidade de trabalhar diretamente com Paulo Henrique Amorim, um dos pioneiros da internet brasileira no jornalismo.
“Foi um período muito feliz. Se eu tivesse na época a mentalidade que eu tenho hoje, jamais teria saído do UOL para trabalhar na revista Forbes na ocasião. Mas enfim, é isso que faz a gente ser o que a gente é: a história que a gente acaba construindo. Foi o período que o digital teve mais presente na minha carreira até o desafio no Itaú, com o Inteligência Financeira, onde efetivamente me tornei um profissional digital”, diz o executivo.
Uma carreira calcada na Economia
O caminho pelas redações se deu, basicamente, pelas editorias de Economia. Um fator que, segundo Leandro, não foi forçado e que acabou acontecendo naturalmente, pelas circunstâncias das primeiras oportunidades que apareceram para ele.
“Nunca fui necessariamente um fã de economia, de pegar a editoria no jornal e destrinchar quando eu estava na faculdade, ou mesmo antes. Mas quando eu ingressei no jornalismo, a primeira oportunidade que eu tive de trabalho foi no panorama setorial da Gazeta Mercantil. E lá tive alguns coachs que foram muito importantes para eu guiar a minha carreira. Pessoas que me descreveram e o segmento como promissor para quem estudava e se preparava. E que eu tinha jeito para coisa. Isso me estimulou muito a seguir nessa área. E acabou se consolidando quando eu tive a oportunidade de trabalhar como assistente da coluna do Celso Ming, que na época escrevia no Jornal da Tarde”, conta Leandro, que aproveitou diversas oportunidades de trabalho na área e baseou grande parte de seu networking a partir das escolha pela Economia feitas no início de carreira.
Transição para a comunicação corporativa
Em 2013, Leandro fez uma transição das redações para a comunicação corporativa, ao assumir um cargo de diretor na FSB. E ao comentar esse movimento de carreira em seu perfil no LinkedIn, ele escreveu: “Para quem sonhava ser repórter de jornal, tem sido uma mudança e tanto de trajetória. Não podia ser diferente. No mundo de hoje, pessoas e organizações precisam se preparar para estar em permanente transformação”.
O executivo conta o que o levou a fazer esse movimento:
“O mundo está em permanente transformação. Mas eu acho que essa transformação acelerada que nós estamos passando, do analógico para o digital, não é algo que acontece a toda hora. É, como dizem, a quarta Revolução Industrial. Estamos vivendo um momento seminal e de mudanças estruturais na sociedade. E acho que o profissional que for incapaz de acompanhar essas mudanças vai ficar para trás”, teoriza Leandro.
Ciente da importância de se estar sempre “up to date”, ele lembra da entrevista definitiva que fez para entrar na FSB, quando foi perguntado sobre o porquê de eu querer trabalhar lá e de ter essa intenção de mudar, de sair da redação.
“Eu disse que era uma coisa meio difusa, não muita clara para mim. Mas que eu tinha muita certeza de que ali eu estaria mais perto do que existisse de inovação em comunicação do que dentro de uma redação de jornal. E eu não poderia estar mais certo. O que acabou acontecendo com a minha carreira de lá para cá foi que eu me tornei um cara muito mais atual e atualizado”, afirma o executivo.
De volta à redação
Após sair da prática da comunicação corporativa na maior agência do Brasil para a mesma área no maior banco do país, Leandro experimentou uma nova mudança, ao comandar a montagem de uma estrutura com um gosto do seu passado, mas repleta de ingredientes do momento de transição midiática vivido na chegada ao Itaú. Ao assumir a agenda de conteúdo editorial do banco, em especial o portal Inteligência Financeira, pode-se dizer que, na prática, o jornalista voltou a comandar uma redação.
“De fato, a minha carreira teve algumas transformações e transições. Passei da redação para a comunicação corporativa. E no banco eu tive uma transição da comunicação corporativa de volta para o jornalismo mais stricto sensu. Pois pode-se dizer, sim, que voltei comandar uma redação. Nesse sentido, foi uma volta ao passado. Mas eu sinto claramente que com mais desafios do que eu tinha quando eu fiz a transição da redação de jornal para a comunicação corporativa”, revela Modé.
Segundo o executivo, o desafio de estar à frente das ações de conteúdo do Itaú trouxeram “uma carga muito grande de adaptação a um novo mundo 100% digital”.
“Tive que acrescentar rapidamente uma série de novos conhecimentos de marketing de conteúdo, de Brand Publishing e mesmo de uma série de ferramentas do meio digital, como as de métricas de audiência, estratégias de distribuição, gestão de redes sociais, entre outros. Algumas coisas que evidentemente eu sabia que eram necessárias, mas que eu ainda não conhecia por dentro como fui obrigado a conhecer. Com isso, até minha semântica do dia a dia mudou muito, pois passei a trabalhar e falar bastante de conceitos que sequer conhecia quatro, cinco, seis meses antes. Mas acho que, em vários sentidos, essa transição foi mais apaixonante, porque ela deixou evidente para mim que era uma oportunidade de me conectar com o futuro”, finaliza o executivo.
Hoje na Vale, com o projeto de Brand Publishing do Radar Mineração entre suas principais frentes, Modé lidera um dos maiores desafios de reputação do mundo corporativo brasileiro: a comunicação de uma companhia que opera em múltiplos territórios, negocia ações na bolsa e precisa dialogar com comunidades, governos e com a sociedade em geral.