Nosso entrevistado da vez é Leandro Modé, Diretor Global de Comunicação da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo e uma empresa que, nos últimos anos, se viu diante de um dos maiores desafios de reputação do mundo corporativo brasileiro. À frente da comunicação de uma companhia que opera em múltiplos territórios, negocia ações na bolsa e precisa dialogar com comunidades, governos e com a sociedade em geral, o executivo se reporta diretamente ao CEO, um sinal de que a área ocupa um lugar estratégico na companhia.

Do jornalismo econômico à comunicação corporativa

A trajetória que levou Modé até esse posto é longa e eclética. Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, ele construiu uma carreira sólida nas principais redações econômicas do país. Passou por Gazeta Mercantil, Estadão, UOL, revista Forbes e Bloomberg, acumulando uma visão apurada sobre economia, mercado e narrativa. 

Também ao longo desse período de redação, Modé desenvolveu o que ele mesmo define como seu diferencial: o olhar de quem prioriza a gestão de reputação, e não a venda, como centro de qualquer estratégia de comunicação.

Em 2013, o então repórter fez a primeira grande transição de carreira: deixou as redações para assumir a diretoria da FSB Comunicação, a maior agência do Brasil, onde liderou times de atendimento de empresas como BTG Pactual, GPA, B3 e Fundação Dom Cabral. 

Cinco anos depois, em 2018, migrou para o Itaú Unibanco, onde assumiu a liderança da comunicação corporativa. Ao longo de sua trajetória no maior banco da América Latina, também foi responsável pela área de relações governamentais. No banco, Modé mergulhou no Brand Publishing, ao assumir a direção do portal Inteligência Financeira. 

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Brand publishing como estratégia de reputação 

Em setembro de 2023, Modé passou por uma nova e grande mudança na carreira: a chegada à Vale, como Diretor Global de Comunicação, posição que, nas suas próprias palavras, “estimula e tira da zona de conforto diariamente”.

Em 2024, o executivo foi um dos coautores do livro “Brand Publishing na Prática”, organizado por Paulo Henrique Ferreira, Diretor-Executivo da Barões Brand Publishing.

Leandro Modé no lançamento do livro “Brand Publishing na Prática”

Radar Mineração: a aposta da Vale no letramento público

E um dos projetos que marcam a atuação de Modé à frente da comunicação na mineradora é o Radar Mineração, portal de Brand Publishing lançado em outubro de 2025 e desenvolvido em parceria com a Barões. 

Com foco predominante em temas setoriais, como transição energética e inovação, o Radar Mineração posiciona a Vale como produtora de informação de interesse público, indo além da comunicação institucional tradicional. Para Modé, é uma ferramenta de letramento, transparência e construção de autoridade em um setor que historicamente comunicou pouco com a sociedade.

Na entrevista a seguir, Modé fala sobre licença social, os desafios de comunicar a mineração, o impacto da geopolítica na estratégia da companhia, o uso de inteligência artificial e o papel do Radar Mineração nesse contexto.

Você costuma dizer que a Vale é uma empresa B2B com uma necessidade crescente de comunicação B2C, apesar de não vender produtos para um público final, e usa a expressão “licença social”. Explique melhor o que é esse conceito no caso da Vale e a importância da comunicação neste caso.

A Vale é uma companhia B2B com comunicação P2P porque, tal qual empresas que vendem diretamente para o consumidor final, tem interação com toda a sociedade. Não vendendo produtos, claro, mas operando em diferentes territórios (Minas Gerais, Pará, Espírito Santo, Maranhão e Rio de Janeiro, aqui no Brasil), vendendo ações no mercado de capitais (papel mais líquido da Bolsa brasileira), interagindo com autoridades de diferentes poderes e localidades etc. Ou seja, é uma empresa presente na vida das pessoas. Além disso, no nosso caso, a licença social, necessária para qualquer empresa do mundo hoje, significa licença real para operarmos. Se não apresentarmos o que fazemos e, mais importante, como fazemos, fica difícil conquistar essa licença social — e, por tabela, a licença real. A melhor forma de nos apresentarmos é por meio de uma comunicação estratégica, com foco em construção de marca e reputação, e uso de variadas ferramentas disponíveis no mundo atual, como o Brand Publishing.

A Vale precisa lidar com o histórico recente dos rompimentos de barragens em Brumadinho e Mariana. E no mundo contemporâneo, a reputação se constrói e se destrói de forma muito fluida. Considerando esses eventos passados, como a comunicação da empresa tem atuado para mostrar na prática o seu processo de transformação cultural, como o compromisso de eliminação de barragens e operações mais sustentáveis?

O ponto de partida é o nosso mantra interno: “Jamais esqueceremos Brumadinho. Por isso, nos transformamos”. Aqui na Vale não existe virar a página em relação à tragédia. Dito isso, a diretoria de comunicação tem, ao mesmo tempo, potencializado para dentro e para fora da companhia essa transformação — construindo narrativas organizadas, legítimas e fundamentadas e trabalhando para transmiti-las —, e sido participante ativa dessa transformação interna. Atuamos muito próximos de outras áreas da companhia, especialmente a de pessoas, nesse processo.

A mineração está no centro de discussões globais e virou protagonista no xadrez geopolítico internacional, devido aos minerais críticos para a transição energética e a desafios logísticos. Como um cenário de alta volatilidade geopolítica, que afeta desde o preço de combustíveis até as rotas de exportação, molda as estratégias de comunicação e de mapeamento de riscos da Vale atualmente?

Naturalmente, uma maior volatilidade implica uma avaliação de risco ainda mais acurada. De outro lado, abre novas oportunidades para expormos a companhia. Por exemplo: há mais espaço para falarmos sobre a importância da mineração para diminuir a dependência do planeta dos combustíveis fósseis e acelerar os processos de transição energética e descarbonização. Há, ainda, pelo menos outro ângulo: mostrarmos como a própria Vale tem trabalhado, de forma bem-sucedida, para minimizar os impactos dessa volatilidade no dia a dia da empresa.

Você é um jornalista por formação, mas hoje ocupa uma posição em que se reporta diretamente ao CEO da Vale, o que mostra que a comunicação deixou de ser uma área meramente operacional, uma “tiradora de pedidos”. Como você enxerga a evolução do comunicador no cenário corporativo atual, especialmente frente à necessidade de se antecipar a crises para proteger a companhia?

A formação de jornalista e a experiência no jornalismo orientam minha abordagem na posição atual de CMO. Meu trabalho divide-se basicamente em duas partes. A primeira é compreender da melhor forma possível os contextos de mundo, de Brasil e das comunidades em que atuamos. A segunda é entender profundamente a Vale para buscar o melhor ângulo para criar nossas narrativas e traduzi-las de forma clara para todos os nossos públicos de interesse. Esse olhar me diferencia porque desloca a prioridade da venda para a gestão da reputação, que considero o ativo mais importante de uma empresa. Reputação é licença social para operar, sem a qual nenhuma organização se sustenta hoje. Por isso, minha atuação é mais voltada ao engajamento, à transparência e à responsabilidade: explicar o que fazemos, como fazemos e por que fazemos. Isso é fundamental numa empresa que tem o desafio de reconstruir sua reputação.

Leandro Modé é destaque da matéria principal do Meio & Mensagem em abril de 2026, que aponta CMOs com papeis cada vez mais estratégicos dentro das empresas

Quais têm sido os maiores desafios para traduzir a complexidade do setor para o público em geral e qual é a importância do Radar Mineração nesse sentido?

O maior desafio para comunicar a mineração hoje reside no hiato de percepção. A sociedade consome os produtos minerais a todo tempo — como no celular, no computador —, mas o processo industrial ainda é visto como algo distante e puramente extrativo. Nosso papel é mostrar que a mineração é o primeiro elo da tecnologia limpa e que a sustentabilidade não é um conceito abstrato, mas uma prática operacional diária, com metas rígidas de descarbonização. Precisamos transformar o complexo em compreensível para que o valor que geramos seja percebido com a mesma clareza com que extraímos o minério que constrói o futuro.

Nesse cenário, o Radar Mineração surge não apenas como um canal de divulgação, mas como uma ferramenta de letramento e transparência. Na era da inteligência artificial, o diferencial está na credibilidade de quem fala. Entendemos que empresas como a Vale têm autoridade técnica para ir além da comunicação institucional e assumir um papel de publisher, produzindo informação de interesse público sobre temas como transição energética e inovação. O Radar tem, em média, 80% do foco em temas setoriais e apenas 20% relacionado à Vale, justamente para qualificar o debate e oferecer profundidade onde antes havia um vazio de dados. É um passo importante para dialogar com a sociedade de forma analítica, provando que o futuro se constrói com informação e boa conversa.

A Vale tem um forte investimento em pesquisa e desenvolvimento. Como essa área de inovação, e agora especialmente o uso da Inteligência Artificial, é visto dentro da companhia, tanto nas operações logísticas quanto no dia a dia da comunicação?

Na Vale, inovação e tecnologia são parte do DNA do negócio e da nossa forma de nos relacionarmos com a sociedade. O forte investimento em pesquisa e desenvolvimento — mais de 800 profissionais dedicados exclusivamente à PD&I, por exemplo — reflete exatamente isso: a convicção de que a mineração do futuro passa por eficiência, segurança e impacto positivo. A Inteligência Artificial já é uma realidade concreta nas operações logísticas, ajudando a tornar processos mais inteligentes, preditivos e seguros, como o uso de veículos autônomos. Mas também tem um papel cada vez mais relevante na comunicação. Usamos IA para ler cenários, entender percepções, identificar mensagens-chave e ganhar velocidade na análise da informação. Isso nos permite colocar as pessoas onde elas geram mais valor: na estratégia, na narrativa, no relacionamento e na construção de reputação. A tecnologia, para nós, não é um fim em si mesma, é uma alavanca para ampliar visão, consistência e impacto da marca Vale.