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Transição midiática no esporte tem o conteúdo como peça-chave

Antes mesmo da crise causada pela pandemia de Covi-19, a indústria esportiva já sofria com o mal do amadorismo, o que mostra a urgência da profissionalização na gestão nas instituições desse mercado

14 de agosto de 2020

Raphael Crespo

A paralisação do calendário, provocada pela pandemia de Covid-19, causou um gigantesco impacto no futebol brasileiro. De acordo com um estudo recente da consultoria Ernst & Young, obtido pelo Estadão, os clubes do país sofreram uma retração de quase R$ 2 bilhões no total, em comparação com 2019. E mesmo com o retorno gradual, essas cifras levam mercado de volta a um patamar financeiro de quatro anos atrás. Mas além do problema totalmente inesperado da maior crise sanitária da nossa época, o esporte no Brasil, inclusive e especialmente o futebol, padece há décadas de um outro mal: o amadorismo. Algo que fica ainda mais evidente na gestão de conteúdo próprio por parte dessas instituições, especialmente dentro de um contexto de profunda transição midiática.

Profissionalismo como vacina

Ao contrário do coronavírus, causador da Covid-19, a vacina contra o amadorismo já existe e é amplamente conhecida. Chama-se profissionalismo. No entanto, especialmente dentro das estruturas dos clubes, sempre muito influenciadas pela política interna, a imunização ainda está longe de ser uma realidade.

A questão do amadorismo futebol brasileiro fica mais evidente ainda diante da polêmica Medida Provisória 984/2020, que estabelece o clube mandante como o detentor do direito de transmissão de uma partida. Como escreveu recentemente Paulo Henrique Ferreira, Diretor Executivo da Barões, em um artigo para o Lance!, ainda não existem garantias de que a MP irá vingar no curto prazo. Mas ela abre uma discussão que não tem volta: a necessidade de os clubes serem gestores, em nível profissional, de seu conteúdo.

“Os clubes ainda contam com gestão precária, muitas vezes amadora. Então, com o rearranjo dessa indústria, eles têm um desafio duplo: profissionalizar de vez os processos de administração e governança dessas instituições e, ao mesmo tempo, se tornarem excelentes gestores de conteúdo. Não será fácil. Afinal, sem aprimorar o ambiente de administração e a mentalidade das diretorias, os clubes certamente também vão perder as imensas oportunidades de notoriedade, engajamento e receita que a gestão profissional de conteúdo traz. E isso pode custar, inclusive, a permanência de alguns times na elite do futebol. No final das contas, quem vai realmente sofrer é o torcedor”, afirma PH Ferreira que, no entanto, acredita que a indústria do esporte, em particular a do futebol, por sua relevância e força na sociedade global, pode virar esse jogo.

Série sobre a transição midiática no esporte

Com o objetivo de discutir o atual momento de transição midiática no esporte, o Brand Publishing Brasil publicou uma série de entrevistas com grandes profissionais dessa indústria.

Todos os entrevistados foram unânimes em apontar a importância da geração de conteúdo dentro de um canal próprio como ferramentas de engajamento e fidelização. Desde o conteúdo mais básico até o mais premium, como as transmissões ao vivo.

Marcos Motta

De acordo com Marcos Motta, sócio da Sócio-fundador da Bichara e Motta Advogados e um dos maiores nomes do Direito no mundo nos ramos do esporte e do entretenimento, a era do “uma para muitos” será substituída pela era do “muitas para um”.

“Isso aumenta o leque de produtos disponíveis, mas também a competição. Dessa forma, um projeto de Brand Publishing, como parte da estratégia de oferece ao torcedor conteúdo de qualidade, exclusivo e que atenda as suas expectativas pode ser uma excelente alternativa para reforçar essa relação. E capitalizar o engajamento e a fidelização natural entre clube e torcedor”, disse Motta.

Na entrevista ao Brand Publishing Brasil, ele destacou a importância da associação entre esporte e entretenimento, dentro de um conceito que vem sendo muito difundido nos últimos anos: o Sportainment.

“O esporte deve ser considerado como parte do entretenimento das pessoas. Já não basta oferecer um jogo ou uma competição, o espectador atual demanda elementos complementares como sociabilidade, networking, comunidade, lazer e etc.”, afirmou o advogado.

Cadu Ferreira

Para Carlos Eduardo Ferreira, Senior partner e CEO da holding SISU Venture Partners, os clubes, ligas e franquias esportivas são empresas com vocação natural para se tornarem publishers. Uma vez que são, por natureza, produtores de conteúdo de alto teor de fidelização e atratividade.

“É claro que o conteúdo mais premium e de maior poder de monetização é o jogo ao vivo. Mas existe uma gama infinita de outros conteúdos à disposição dos clubes. E aqueles que são mais criativos estão trabalhando para assumir o controle da criação, produção e distribuição desses conteúdos adicionais como forma de engajar, buscar a fidelização e gerar receita”, afirmou Cadu Ferreira.

Ricardo Taves

Com passagens pelo Corinthians e pelo Flamengo, o estrategista digital Ricardo Taves, da agência FC Diez, responde atualmente por toda a presença digital das competições de clubes da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL). Com a experiência de quem já produziu conteúdo para os dois times de maior torcida do país e agora se comunica com toda a América do Sul, Taves defende o conteúdo como uma ferramenta de engajamento e fidelização permanente.

“Porque é ele que move um campeonato, seja o conteúdo em rede social, seja o jogo que passa ao vivo na televisão. Tudo faz parte da experiência do torcedor. Tudo é conteúdo. Desde a entrevista que o jogador vai dar na saída do campo até a forma como a arbitragem de uma partida é apresentada. Tudo precisa ser pensado, porque só assim você transforma um campeonato, uma liga ou o que quer que seja num produto interessante. E que vai reter o seu tipo de público”, afirmou Taves, também em entrevista ao Brand Publishing Brasil.

O conteúdo é a esperança

A Caixa de Pandora do esporte brasileiro está aberta e não é de hoje. Na mitologia grega, o artefato continha todas as desgraças do mundo, como fome, pobreza, inveja, ódio, doença, guerra, entre outros. E um grande bem: a esperança. No caso do mercado esportivo, as mazelas são conhecidas. E a gestão profissional de um conteúdo próprio, de ponta a ponta, é o que pode trazer ao segmento uma expectativa de dias melhores.

“De uma forma ou de outra, o ambiente vai se profissionalizar. Não tem jeito. A indústria do esporte é importante demais para ficare na mão de amadores. Afinal, é uma indústria rica, cultural, cujos os pilares são a mídia e o entretenimento. Então a mentalidade retrógrada de muitos cartolas vai ficar flagrantemente anacrônica nessa próxima década. Os resultados dentro e fora de campo vão depurar o profissionalismo na gestão dessa indústria”, finaliza PH Ferreira, da Barões.

Veja abaixo toda as matérias da série:

Ricardo Taves: “Se o conteúdo não for bom, ele não se sustenta”
“Clubes têm vocação natural para se tornarem publishers”, diz Cadu Ferreira
Marcos Motta: “O esporte deve ser considerado parte do entretenimento das pessoas”
A revolução do conteúdo na indústria do esporte
Gestão de conteúdo: clubes de futebol precisam se profissionalizar