O Summit ANER, realizado no dia 1º de outubro na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, encerrou sua programação com um debate sobre os desafios e oportunidades que aguardam o mercado editorial brasileiro. O sétimo e último painel “O que vem depois?” reuniu quatro especialistas para discutir estratégias de sustentabilidade financeira em um cenário de transformação acelerada.

O jornalista e professor Ricardo Gandour moderou a conversa, que contou com as participações de Guilherme Ravache (colunista do Valor Econômico e criador do podcast Ravache Pod), Elaine Silva (Sócia-diretora da Agência de Notícias Alma Preta) e Mara Luquet (Fundadora e CEO do canal MyNews).

O encontro marcou o aniversário de Gandour, celebrado ao final do evento pela plateia que lotou o Auditório ESPM Tech, na Vila Mariana.

Veja como foi o evento na íntegra:

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Diversificação como estratégia de sobrevivência

Mara Luquet compartilhou a experiência de construir um modelo de negócio sustentável no YouTube. “Para você se sustentar não vai ser um pé, são vários”, explicou a jornalista, destacando que o MyNews opera com múltiplas fontes de receita: canal no YouTube, site e uma revista exclusiva para assinantes.

A estratégia de diversificação inclui 4.000 assinantes de uma publicação com valor elevado, que funciona como ferramenta de criação de comunidade. Luquet enfatizou a importância de manter operações enxutas e produtivas, aprendizado adquirido após começar com uma estrutura maior que se mostrou insustentável.

“Você tem que ser enxuto, você tem que ser produtivo para poder se pagar”, afirmou Luquet, acrescentando que a inovação constante é fundamental em um mercado onde práticas bem-sucedidas são rapidamente replicadas por concorrentes.

Transformação da dependência filantrópica

Elaine Silva apresentou a trajetória da Alma Preta, que evoluiu de uma operação dependente de filantropia para um modelo diversificado. A agência reduziu sua dependência de doações de 98% para 51% da receita total, expandindo de seis para 37 funcionários.

“Com vários planejamentos, a gente cresceu muito e eu comecei a pensar formas”, contou Silva, explicando como desenvolveu estratégias para monetizar o conteúdo jornalístico. A executiva destacou a importância de equilibrar propósito e sustentabilidade financeira sem “fazer da dor comércio”.

A campanha “Corredor em Perigo”, desenvolvida em parceria com a agência de publicidade lew’lara tbwa, exemplifica essa abordagem. A iniciativa, que abordou racismo no esporte ao retratar um atleta negro correndo com colete à prova de balas, conquistou um Leão de Prata no Cannes Lions 2025 e gerou visibilidade para novos negócios.

Conteúdo como meio, não apenas fim

Guilherme Ravache trouxe a perspectiva de quem atua simultaneamente como observador e participante do mercado. O colunista opera três empresas que surgiram de necessidades identificadas durante sua trajetória profissional: consultoria, produção de conteúdo e tecnologia.

“A gente sempre entendeu o conteúdo como fim. Esse modelo ele não vai deixar de existir, mas a gente também precisa entender que o texto às vezes ele é um meio”, explicou Ravache. Para ele, o conteúdo funciona como ferramenta de atração de clientes para consultorias e outros serviços.

Ravache prevê que os próximos 20 anos serão marcados por curadoria e credibilidade, em contraste com o foco em volume e escala das duas décadas anteriores. “No final do dia é curadoria, é o cara olhar aquele conteúdo e falar: ‘Eu gosto que a Mara produz, eu gosto que a alma preta produz'”, afirmou.

Independência editorial e sustentabilidade

Ricardo Gandour contextualizou o debate lembrando princípios fundamentais do jornalismo. “A independência financeira é um pressuposto da independência editorial. Você só é independente se você para de pé”, declarou o moderador, estabelecendo a sustentabilidade como dever ético das organizações jornalísticas.

O professor destacou que o mercado publicitário se expandiu com os meios digitais, permitindo que pequenos negócios locais anunciem pela primeira vez. Essa democratização do acesso à publicidade representa oportunidade para veículos que souberem se posicionar adequadamente.

Relacionamento com patrocinadores

A questão do patrocínio gerou debate sobre como manter independência editorial. Luquet relatou que nunca enfrentou interferência de patrocinadores, atribuindo o sucesso a contratos claros que estabelecem limites e expectativas desde o início da parceria.

“É só você deixar isso muito claro no contrato”, explicou Luquet, citando casos em que cobriu escândalos financeiros envolvendo setores de patrocinadores sem receber pressão para alterar a cobertura.

Perspectivas para o futuro

Os participantes concordaram que a inteligência artificial representa uma mudança comparável ao surgimento da internet, exigindo adaptação rápida dos profissionais. Ravache alertou que muitos veículos precisarão se reposicionar, mas defendeu que há espaço para diferentes modelos de negócio.

“Vai ter veículo que vai viver de volume, vai viver de programática. Uma coisa não mata outra, sempre vai ter espaço para todo mundo, mas não vai ter espaço pro mesmo número de players que tem hoje”, previu o colunista.

Elaine Silva enfatizou a importância do trabalho coletivo para o futuro do setor. Por meio da Black Ad Network, que reúne mais de 60 veículos liderados por pessoas pretas, ela busca distribuir recursos publicitários para organizações menores que não conseguem acessar mídia programática individualmente.

O Summit ANER, primeiro de uma série de encontros promovidos pela Associação Nacional dos Editores de Revistas, demonstrou que a sustentabilidade do jornalismo brasileiro depende de estratégias diversificadas, inovação constante e colaboração entre diferentes players do mercado editorial.

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Dúvidas mais comuns

A diversificação de receitas é fundamental para a sobrevivência de organizações jornalísticas, pois reduz a dependência de uma única fonte de financiamento. Como exemplificado no Summit ANER, o MyNews opera com múltiplas fontes: canal no YouTube, site e revista exclusiva para assinantes. Essa estratégia permite que o veículo mantenha operações enxutas e produtivas, garantindo independência financeira que é essencial para a independência editorial.

A Alma Preta evoluiu de um modelo dependente de doações (98% da receita) para um modelo diversificado onde a filantropia representa apenas 51% da receita total. A agência desenvolveu estratégias para monetizar o conteúdo jornalístico, expandindo de seis para 37 funcionários. Essa transformação foi possível através de planejamento cuidadoso e iniciativas como campanhas de impacto social que geraram visibilidade e novos negócios, equilibrando propósito e sustentabilidade financeira.

A independência editorial com patrocinadores é mantida através de contratos claros que estabelecem limites e expectativas desde o início da parceria. Segundo Mara Luquet, fundadora do MyNews, nunca enfrentou interferência de patrocinadores porque deixou explícito no contrato quais são os limites, permitindo que o veículo cobrisse escândalos financeiros envolvendo setores de patrocinadores sem receber pressão para alterar a cobertura.

Guilherme Ravache destaca que o conteúdo funciona como ferramenta de atração de clientes para consultorias e outros serviços, não apenas como produto final. Essa perspectiva permite que os profissionais criem modelos de negócio mais diversificados, onde o texto e o conteúdo servem como porta de entrada para outras receitas. Essa abordagem é especialmente relevante em um mercado onde a inovação constante é necessária para competir.

Nos próximos 20 anos, a curadoria e credibilidade serão mais importantes do que volume e escala, segundo especialistas do Summit ANER. O mercado tenderá a valorizar veículos que constroem reputação e confiança com seu público, em contraste com o modelo anterior focado em quantidade de conteúdo. Essa mudança reflete a necessidade de diferenciação em um mercado saturado, onde o público escolhe fontes que respeita e confia.

A inteligência artificial representa uma mudança comparável ao surgimento da internet, exigindo adaptação rápida dos profissionais e veículos editoriais. Embora alguns veículos precisem se reposicionar, há espaço para diferentes modelos de negócio coexistirem. Alguns viverão de volume e programática, enquanto outros focarão em nicho e credibilidade, mas o número total de players no mercado tenderá a diminuir.

A Black Ad Network é uma iniciativa que reúne mais de 60 veículos liderados por pessoas pretas, buscando distribuir recursos publicitários para organizações menores que não conseguem acessar mídia programática individualmente. Essa rede colaborativa permite que veículos de menor escala tenham acesso a oportunidades de monetização que seriam inacessíveis isoladamente, promovendo equidade no mercado editorial e sustentabilidade coletiva.

A independência financeira é um pressuposto ético da independência editorial porque um veículo que depende financeiramente de uma fonte única está vulnerável a pressões e interferências editoriais. Como afirmou Ricardo Gandour no Summit ANER, 'você só é independente se você para de pé', ou seja, se consegue se sustentar financeiramente de forma autônoma. Essa sustentabilidade garante que as decisões editoriais sejam tomadas com base em critérios jornalísticos e não em pressões financeiras externas.