O publishing e a educação enfrentam desafios similares na era digital: como manter a atenção do público em um ambiente saturado de informações e como transformar conhecimento complexo em conteúdo acessível. Essa foi uma das principais reflexões do painel “Mídia e Educação”, realizado durante o FIPP Insider São Paulo, que reuniu especialistas da ESPM para, especialmente, discutir a integração entre esses dois universos.

Denilde Holzhacker, Diretora Acadêmica de Negócios e Tecnologia, e Jane de Freitas Mündel, Diretora de Inteligência e Comunicação, conduziram uma discussão sobre como mídia e educação podem trabalhar juntas para formar cidadãos mais críticos e bem informados.

Veja na íntegra como foi o evento

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O desafio da transformação simultânea

“A comunicação e a mídia está passando por uma grande transformação, mas a educação também”, observa Denilde Holzhacker. Segundo ela, o processo de aprendizagem mudou drasticamente com as gerações nativas digitais, que “aprendem diferente” e “vivem um mundo conectado”.

A especialista destaca que estudantes chegam às universidades com grande capacidade de acesso à informação, mas enfrentam dificuldades para utilizá-la de forma crítica. “A diferença entre ter acesso e saber como utilizar essa informação é o grande desafio”, afirma.

Jane de Freitas Mündel complementa essa visão apresentando dados preocupantes: uma pesquisa da ECA-USP revelou que 62% dos estudantes admitiram ter deixado de fazer tarefas escolares devido ao tempo excessivo no ambiente online. O Brasil ocupa a segunda posição mundial em tempo de tela, o que intensifica os desafios educacionais.

Mídia como curadora e tradutora do conhecimento

Para Holzhacker, a mídia pode desempenhar dois papéis fundamentais na transformação da educação. O primeiro é atuar como curadora, ajudando indivíduos a desenvolver pensamento crítico em meio ao bombardeio constante de informações. E o segundo papel envolve a divulgação científica.

A mídia é quase um tradutor do que acontece hoje em termos de pesquisa no mundo

Ela enfatiza a importância de traduzir linguagem técnica e hermética para uma linguagem acessível a qualquer cidadão.

Obstáculos na conexão entre universidade e publishers

Durante o painel, emergiu uma questão central: como conectar o conhecimento universitário com os publishers sem “cientificizar” o conteúdo? Holzhacker identifica problemas em ambos os lados dessa equação. “A universidade precisa entender o seu papel”, admite.

Segundo ela, as instituições acadêmicas frequentemente falam apenas para um público cativo e utilizam linguagem acadêmica como ferramenta de autoridade. Por outro lado, a mídia opera com tempos diferentes, buscando instantaneidade enquanto a pesquisa demanda reflexão.

Jane de Freitas Mündel acrescenta que é necessário “ter a abertura e o interesse em vir até o ambiente da educação, da ciência, para entender o que está sendo criado”.

Ela critica a abordagem comum de solicitar fontes prontas com prazos apertados, quando poderiam existir colaborações mais profundas.

Exemplos práticos de integração

A ESPM desenvolve diversos projetos que exemplificam a integração entre mídia e educação. A instituição mantém parcerias com veículos como CBN para ensinar produção de podcast, considerado “queridinho dos estudantes” por Holzhacker.

A universidade também criou hubs temáticos em parceria com publicações especializadas. O hub de moda trabalha com Vogue e Glamour, enquanto outros abordam esporte (Máquina do Esporte), agronegócios (Canal Rural) e finanças. Nesses projetos, os veículos atuam como curadores de conteúdo, identificando informações relevantes para especialistas e estudantes.

Formação de comunicadores completos

Um aspecto destacado pelas especialistas é a necessidade de formar pesquisadores que dominem múltiplas ferramentas de comunicação.

Todo aluno da ESPM deveria saber todos os recursos de comunicação. Ele tem que saber fazer um vídeo, ele tem que saber editar, ele tem que saber falar com a imprensa

Essa abordagem reflete uma mudança de mindset na pesquisa brasileira, que precisa sair do “gabinete” e gerar impacto real na sociedade. “Para ela ter impacto, ela tem que comunicar”, resume a diretora acadêmica.

Educação midiática como ponte

O painel também abordou iniciativas como o projeto Educomídia, desenvolvido em parceria com o Instituto Palavra Aberta. O objetivo é fazer com que as pessoas compreendam melhor o papel da mídia e saibam utilizá-la como ferramenta educacional e de análise crítica.

Holzhacker destaca que, desde 2017, a Base Nacional Comum Curricular inclui a comunicação digital e o papel da mídia como eixos fundamentais, demandando formação específica de educadores para aplicação em suas disciplinas.

A integração entre publishing e educação representa uma oportunidade de criar conteúdo mais relevante e formar cidadãos mais críticos.

Como concluíram as especialistas, o sucesso dessa parceria depende de diálogo, tempo para construção conjunta e interesse mútuo em traduzir conhecimento complexo para linguagem acessível, beneficiando tanto a sociedade quanto as marcas que se posicionam como produtoras de conteúdo educativo.

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Dúvidas mais comuns

A mídia desempenha dois papéis fundamentais: atuar como curadora de informações, ajudando indivíduos a desenvolver pensamento crítico em meio ao bombardeio constante de conteúdos, e como tradutora do conhecimento científico. Ao transformar linguagem técnica e hermética em conteúdo acessível, a mídia capacita cidadãos a compreender melhor o mundo e tomar decisões mais informadas, fortalecendo a democracia e a participação ativa na sociedade.

Ambas enfrentam desafios similares: manter a atenção do público em um ambiente saturado de informações e transformar conhecimento complexo em conteúdo acessível. Além disso, estudantes têm grande capacidade de acesso à informação, mas dificuldades para utilizá-la criticamente. O Brasil ocupa a segunda posição mundial em tempo de tela, intensificando os desafios educacionais, com 62% dos estudantes admitindo deixar tarefas escolares por tempo excessivo online.

É necessário diálogo profundo e interesse mútuo entre universidade e mídia. A universidade precisa sair da linguagem acadêmica hermética e entender seu papel comunicativo, enquanto a mídia deve ter abertura para compreender o ambiente científico e criar colaborações mais profundas, em vez de solicitar fontes prontas com prazos apertados. Essa integração requer tempo para construção conjunta e disposição de ambos os lados.

A educação midiática prepara estudantes para agir como participantes ativos em uma sociedade digital, desenvolvendo pensamento crítico e analítico sobre conteúdos midiáticos. Ela promove compreensão dos meios de comunicação, seus interesses econômicos, sociais e políticos, além de cultivar ética e responsabilidade digital, incluindo privacidade e uso consciente de dados.

A ESPM desenvolve diversos projetos exemplares: parcerias com CBN para ensino de produção de podcast, hubs temáticos em colaboração com publicações especializadas (Vogue e Glamour para moda, Máquina do Esporte para esportes, Canal Rural para agronegócios) e o projeto Educomídia em parceria com o Instituto Palavra Aberta. Nesses projetos, veículos atuam como curadores de conteúdo, identificando informações relevantes para especialistas e estudantes.

Para que a pesquisa tenha impacto real na sociedade, ela precisa comunicar. Pesquisadores que dominam vídeo, edição, apresentação à imprensa e outras ferramentas conseguem traduzir descobertas científicas para linguagem acessível, ampliando o alcance e a relevância de seu trabalho. Essa abordagem reflete uma mudança de mindset na pesquisa brasileira, que precisa sair do 'gabinete' e gerar impacto tangível.

As gerações nativas digitais aprendem diferente e vivem em um mundo conectado, chegando às universidades com grande capacidade de acesso à informação. No entanto, enfrentam dificuldades para utilizá-la de forma crítica. A diferença entre ter acesso e saber como utilizar essa informação é o grande desafio contemporâneo, exigindo que instituições de ensino adaptem suas metodologias e enfoque pedagógico.

Desde 2017, a BNCC inclui a comunicação digital e o papel da mídia como eixos fundamentais no currículo escolar. Essa inclusão demanda formação específica de educadores para aplicação em suas disciplinas, reconhecendo que a educação midiática é essencial para preparar estudantes a compreender melhor o papel da mídia e utilizá-la como ferramenta educacional e de análise crítica.